Existe “roupa de faculdade”? Como a Fafich se tornou uma galeria identitária

 Por Sophia Horan / @sophioliveiras


Pensando no ambiente institucional, normalmente repleto de regras, porém cheio de cultura e identidades, diariamente surge uma dúvida cruel: Que roupa usar? 

 O diferente é relutante 

  

Não é de hoje que vestimentas retratam personalidades. Cores, estampas e recortes conseguem mostrar o que as palavras não dizem, mas em um ambiente um pouco mais formal e geralmente restritivo, essa forma de expressão é limitada. Medo, receio e vergonha são sentimentos constantes na hora de escolher uma roupa menos “comum”. O “alternativo” ou diferente é normalmente julgado pelas pessoas de fora, ainda mais em um ambiente tão diverso quanto a universidade. A grande variedade de cursos e conhecimentos constroem um espaço com inúmeras opiniões, que saem do âmbito teórico e passam para o dia a dia geral.  Isso, além de infelizmente influenciar em um medo da opinião pública, também trabalha no quesito contrário, construindo um local extremamente plural em que o indivíduos que se mostram diferentes tendem a assegurar sua identidade. A Fafich é o exemplo perfeito dessa pluralidade, sendo, juntamente com a Belas Artes, o local da UFMG que mais se observa pessoas que fogem do padrão.


O vestuário na Fafich é representado graças à diversidade do prédio / Por Júlia Duarte.


Quando a teoria se torna prática


 Pensando no contexto universitário, a Fafich consegue se diferenciar no quesito liberdade e expressão, sobre isso a aluna de psicologia Rutyellem Rodrigues, afirmou que:


“Na prática, não existe uma roupa de faculdade obrigatória, diferente da escola, onde muitas vezes há uniforme. Na universidade, cada pessoa escolhe como quer se vestir, e isso já é uma forma de expressão de quem somos. A roupa comunica identidade, gostos, valores e até posicionamentos sociais ou políticos. Porém, o contexto também importa. A faculdade é um espaço coletivo e diverso, então algumas escolhas de vestimenta podem ser vistas de formas diferentes dependendo do curso, do ambiente e até da região cultural. Por exemplo, em áreas mais formais, como Direito, Administração ou Medicina, pode haver uma expectativa (mesmo que não declarada) de roupas mais sociais em certas situações, como apresentações, estágios ou visitas institucionais. Já em cursos do Belas Artes, ou da Fafich, por exemplo, costuma haver mais liberdade estética e menos cobrança de formalidade.”


Isso não só complementa, como comprova o que pontuado anteriormente. Os diferentes ambientes da universidade, divididos em área, apresentam diferentes culturas e condutas de comportamento, o que se retrata diretamente na vestimenta dos alunos. Existe uma diferença visível entre o nível de liberdade de expressão para cada área de trabalho e conhecimento, o que reflete completamente nas roupas utilizadas pelos diversos grupos. 


O medo é igualitário?


Quando se trata de mulheres, a discussão toma outro rumo. O corpo feminino é um grande tabu na sociedade e é colocada uma pressão desproporcional nas regras de condutas direcionadas a ele. Mostrar a pele, ou não, é uma pergunta constante, não só pelo medo de julgamento, mas também pelo medo do próprio assédio. Até mesmo em dias de extremo calor, a questão de “vale a pena usar um short?” vem à tona. Esse receio não é a toa, visto que, em uma entrevista aplicada pelo Instituto Patrícia Galvão, 56% das entrevistadas já sofreram assédio sexual na universidade, sendo um número tão assustador que não só justifica como intencifica esse amendotramento. 


Além disso, o medo do julgamento alheio se tornou ainda mais concretizado em 2009, quando Geisy Arruda, na época estudante de turismo da Uniban, decidiu ir para a faculdade utilizando um vestido curto rosa, com o propósito de ir a uma festa ao final da aula, objetivando a praticidade. Com o maior conservadorismo e a hostilização do corpo da mulher ainda mais forte à época, seus colegas iniciaram uma grande tensão, em que Geisy foi hostilizada, xingada e perseguida apenas devido a suas vestimentas. Mesmo que mais aparente naquele tempo, esse julgamento ainda se encontra na mente de diversas pessoas e é sentido no dia a dia universitário.


https://extra.globo.com/incoming/9660695-c6f-7d9/w533h800/geisy-arruda-1.jpg


Entender como as pessoas podem ser hostis, é compreender o medo de se vestir fora das normas comuns. A área de pele exposta é apenas um exemplo desse medo, no momento que você percebe a dimensão de mensagens que as vestimentas transmitem, compreende-se quão profundo é esse tópico. As roupas demonstram mais do que só a personalidade, com elas é possível visualizar cultura, ideologia e até fugir da concepção de gênero. Pensando no âmbito da moda, a designer Muccia Prada afirmou que: "O que você veste é como se apresenta ao mundo, especialmente hoje, quando os contatos humanos são tão rápidos. Moda é linguagem instantânea". Atrelar o estilo ao código de comunicação, dá à vestimenta o poder de representação, e por isso é tão necessário que as pessoas se sintam confortáveis em se comunicar por meio das roupas.


Fafich 


A Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG é referência quando falamos sobre expressão e liberdade, não só pela sua preocupação com pautas e publicações que focam na visibilidade de grupos e assuntos vistos como minoritários, mas também por ter conseguido criar um ambiente em que os alunos se sintam confortáveis em se expressar e levantar sua voz, isso se reflete em suas roupas. O prédio da Fafich é uma galeria de moda e cultura, onde ninguém é igual, e essa pluralidade demonstra como as personalidades e ideias se divergem quando se é construído um espaço em que há grande incentivo ao discurso e exposição de opiniões. Claro que, por se tratar de um local de estudos das ciências humanas, o debate sobre pautas sociais está sempre presente, o que já incentiva uma diversidade maior. Porém, a Fafich transcende isso, ao se mostrar não só como espaço de conhecimento, mas também como um palco para essas lutas identitárias.


 Além de só estilo, na Fafich vemos também um uso das peças de roupa como forma de “telão” para pautas importantes. Por ser uma área caracterizada pelas lutas sociais, agrupadas em comunidades manifestantes, utilizam blusas, que não só os caracteriza, mas também denunciam suas ideias de melhora, aumentando a visibilidade. Esse uso não convencional das vestimentas contribui para a diversidade que é o prédio de estudos humanos, o transformando em um ambiente ao mesmo tempo colorido, comunicativo e participante ativo da sociedade. 


Entendendo isso, roupas deixam de ser um pedaço de pano e passam a ser uma forma de distinção e comunicação, dando voz às pessoas de forma a pintar o ambiente de estudos com estilo. Dessa forma, a Fafich virou referência quando se fala de liberdade, tornando-se uma galeria de cultura e identidade, parte importante do que é a própria UFMG. Então, Vestir-se é resistência, expressão e identificação, os três ingredientes para criar diversidade e igualdade em um tipo de instituição que é tradicionalmente hierárquica.

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